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Usa a Comunidade, Luke

Nota: Este artigo foi publicado originalmente no último iGov DOC, sobre SIG na Administração Pública, páginas 21-23. Resisti à tentação de fazer alterações que agora me parecem óbvias, e apenas corrigi algumas gralhas. (Aqui no blog fica pesquisável na web…)

SIG Open Source? Sim, obrigado.

Como gestor de um Sistema de Informação Geográfica (SIG) tenho especial interesse em analisar a decisão de usar um dado produto num projecto. E em especial quando esse produto pode ser de Código Aberto (CA) quais são as implicações associadas a essa escolha? Além das minhas próprias escolhas, observo com interesse as escolhas de colegas em situações semelhantes, as suas dúvidas e receios. Em geral, a escolha de produtos CA carregam um receio que não surge na escolha de produtos de Código Fechado (CF). É sobre esta questão que espero contribuir construtivamente neste artigo.

Os Suspeitos do Costume

Antes de continuar, devo referir algumas das soluções de Código Aberto actualmente mais usadas na área SIG. Espero com esta lista apresentar soluções que são fiáveis, estáveis, sustentáveis, e duráveis no tempo, para as várias vertentes de um SIG.

Na gestão de informação geográfica (IG), a escolha é indisputada, recaindo na base de dados relacional PostgreSQL (PgSQL) e o seu módulo PostGIS. Juntos são a solução Open Source mais usada para armazenamento e gestão de IG, havendo exemplos impressionantes da sua utilização em todo o mundo. Mais relevante, a meu ver, do que o mérito tecnológico do PgSQL, é a quantidade de produtos que são compatíveis com esta base de dados, abrangendo praticamente todos os produtos na área SIG, Open Source ou de Código Fechado. Esta é, para mim, das maiores virtudes do PgSQL.

Na área dos servidores de webgis, ou seja, de serviços web de informação geográfica, existem duas opções mais usuais: MapServer e GeoServer. Ambos suportam uma enorme lista de padrões de publicação via web (WMs, WFS, WPS, WCS, …), oferecem desempenhos excelentes, e têm comunidades enormes. Assim, a escolha aqui é uma questão de preferência pessoal. Curiosamente, todos os anos é organizada uma competição de desempenho, onde uma equipa MapServer e uma equipa GeoServer se confrontam numa série de testes. Este embate de titãs acontece na conferência anual FOSS4G, organizada pela Open Source Geospatial Foundation (OSGeo), e as conclusões são usadas para planear melhoramentos futuros.

Ainda na área webgis, falta referir a área de programação, ou seja, a tecnologia para criar aplicações web com mapas. A resposta é também muito fácil – OpenLayers. Este produto nasceu em 2005, tendo um crescimento explosivo desde então. É compatível com um enorme conjunto de servidores, não apenas Open Source, sendo usado directamente ou incorporado noutros produtos. Se costuma usar um mapa online, há uma grande probabilidade que esteja a usar OpenLayers. Por exemplo, sabe qual é a base tecnológica dos mapas do Sapo? Pois é…

Existem ainda outros produtos que permitem criar sites com mapas exigindo menores capacidades de programação, entre eles o MapFish, a OpenGeo Suite, e o p.mapper.

No posto de trabalho temos também opções excelentes, sendo as mais conceituadas o gvSIG e o Quantum GIS. Ambos oferecem as funções que todos esperamos de um programa SIG: visualização, edição, análise, impressão, e gestão de informação geográfica; e claro tudo via interface gráfica, nada de comandos de linha. Ambos são modulares, com diversos módulos que adicionam novas capacidades, como visualização 3D, modelação geoestatística, edição tipo CAD, gestão de PostGIS, publicação de serviços WMS, entre muitos, muitos outros. Tanto o gvSIG como o QGIS integram-se com dois outros produtos Open Source especializados em análise geográfica: o gvSIG recorre ao Sextante, e o QGIS recorre ao GRASS. Com esta integração, a capacidade de análise que fica ao nosso dispor é nada menos que extraordinária.

A lista de opções dignas de nota é bem mais vasta, mas espero que esta curta lista possa ser útil como ponto de partida.

Usa a Comunidade, Luke

Quando se opta por um produto de Código Aberto, à partida não há um contrato de manutenção com um contacto telefónico ou de email a que podemos recorrer quando encontramos um problema que não conseguimos solucionar sozinhos. Mas há outros mecanismos de suporte, diferentes mas tão ou mais eficazes, como veremos.

Por definição, num produto Código Aberto, temos acesso ao código fonte do software, sendo possível alterá-lo de acordo com as nossas necessidades. Mas também é óbvio que esta não é uma tarefa exequível na maioria das organizações. O que temos, que é ainda melhor que o acesso ao código fonte, é acesso aos programadores desse produto. Via email ou irc (vulgo chat), podemos discutir as nossas dificuldades directamente com os programadores. Mais, temos acesso ao site onde os programadores registam os problemas detectados, que usam para planear as suas próximas tarefas. Melhor ainda, podemos nós mesmos registar nesse site melhoramentos e problemas que julgamos mais importantes, influenciando a sua prioridade. Esta capacidade de intervir e ver solucionados problemas rapidamente é um aspecto fulcral das comunidades de software livre.

Claro que a comunidade que rodeia um produto Open Source não se limita aos seus programadores. A maioria dos membros dessa comunidade são utilizadores como nós, em diversos graus de maturidade e experiência de utilização. De início, seremos consumidores de conselhos e de ajuda. Gradualmente, seremos contribuidores, mais activos em fornecer essa mesma ajuda e conselhos a quem se iniciou depois de nós.

Este processo de construção de comunidades não é exclusiva de produtos de Código Aberto, mas é aqui um processo mais intenso, uma vez que os programadores e mentores do produto estão muito presentes, certamente mais do que é habitual em produtos de Código Fechado.

Uma organização que decida implementar um projecto SIG baseado em tecnologia de Código Aberto não deve olhar apenas para o preço de aquisição e manutenção, embora este seja sempre um factor fundamental de selecção. Há todo um modo de actuar que lhe está associado, uma nova postura, talvez mais proactiva e mais participativa, que é, na minha opinião, profissionalmente mais estimulante.

Dúvidas Existenciais

Havendo um conjunto de produtos de Código Aberto com qualidade que abrange todas as áreas de um SIG, então o pode fazer hesitar um gestor na altura de seleccionar um deles para um novo projecto?

Para além de outras, existem duas razões muito comuns para para hesitações na implementação de produtos Open Source. Uma é a percepção de não existirem empresas a operar no mercado que possam oferecer serviços de desenvolvimento, de formação, e de suporte técnico. Outra é o receio de que o produto possa desaparecer a qualquer momento.

Na verdade, Open Source é um termo muito lato, que abrange um vasto leque de situações. Apenas num dos sites de Open Source mais conceituados (Source Forge) encontramos 280 mil projectos disponíveis.

O que se pode argumentar quanto a estes receios? Que certos produtos são escolhas seguras e que outros são escolhas mais arriscadas. Que a sensatez ainda é a nossa melhor ferramenta de decisão. E nada disto é novo, com Código Aberto ou Código Fechado a situação é em tudo semelhante.

Quanto a empresas, hoje é fácil encontrar quem nos suporte no nosso projecto de Software Aberto SIG (SASIG). Não vou aqui enunciar nomes, mas alguma pesquisa na Internet, alguns telefonemas e mensagens de email, resolvem a questão certamente, incluindo formação e suporte contratualizado. Se extraordinariamente não encontrar alguém em Portugal, hoje em dia isso não é obrigatoriamente impeditivo, dada a facilidade de, remotamente, empresas noutro local do mundo nos apoiarem nos nossos esforços.

O Futuro

O futuro é brilhante. E só pode melhorar. Pelo menos no mundo de Código Aberto.

Os melhores produtos continuarão a fortalecer-se, obtendo ainda maior aceitação. A construção da comunidade nacional está em marcha. No final de 2010 foi formalizada a OSGeoPT – Associação Software Aberto para Sistemas de Informação Geográfica, à qual honradamente pertenço, com o intuito de mobilizar a comunidade portuguesa de SIG de Código Aberto. E a 4ª Conferência SASIG está já agendada para Novembro, em Guimarães. Todos estão convidados a participar, a partilhar experiências, sucessos e dificuldades, a aprender e ensinar.

Procure a sua comunidade, o wiki da OSGeo PT e lista de email, envolva-se, e acabe de vez com as suas dúvidas existenciais.

SASIG II – Notas

As 2ªs Jornadas de Software Aberto de Sistemas de Informação Geográfica terminaram, e pensei em escrever um pequeno post sobre o evento.

Em relação à organização, foi consensual – a qualidade do evento foi muito acima da média, mesmo comparando com eventos de muito maior dimensão. O espaço estava bem adaptado e equipado, e o evento social (jantar) foi simplesmente fantástico.

Mas o que mais sobressaiu foi o espírito que se viveu na conferência. Falando com várias pessoas, todas apontavam este sentimento de partilha, entre-ajuda, e camaradagem, como algo de especial, que não se vê noutros congressos. Por isso, aconselho vivamente a quem se interesse pela área dos SIG que assista às próximas SASIG em 2010, que serão em Lisboa (temos de aguardar por mais detalhes).

Convidados

O facto de termos presentes alguns convidados de fora, envolvidos em projectos de grande projecção, também ajudou e muito a elevar o nível de interesse. Estiveram presentes e fizeram apresentações responsáveis dos projectos World Wind (da NASA), do gvSIG, do Sextante. Também foi muito interessante ouvir as experiências e opiniões de pessoas envolvidas no desenvolvimento de comunidades noutros países, havendo representantes da própria OSGeo internacional, e dos capítulos locais Italiano e Espanhol.

Comunicações

Quanto às apresentações, foi apresentado um bom painel de assuntos, muito abrangente. Das apresentações que vi, apreciei muito 2 apresentações de mestrandos, com excelente nível técnico, o que comprova a qualidade do nosso ensino e dos nossos estudantes. Precisamos de mais casos assim, e pessoalmente gostaria de ver mais comunicações universitárias com tão elevado grau de exigência.

Todas as comunicações estão já disponíveis para download (84MB), e parece que teremos o video também em breve:

http://evora.sigaberto.org/downloads/apresentacoes.zip

Uma apresentação que me chamou a atenção em especial foi a do Sapo Mapas. Este site de mapas aparentemente fez tudo bem: tem cartografia temática de grande qualidade, com uma quantidade impressionante de pontos de interesse (200 mil agora, para breve 600 mil), pesquisa de códigos postais 7 dígitos, itinerários, “trânsito em directo”, fotografias panorâmicas, e ainda uma API que qualquer pessoa e empresa pode usar para incluir mapas no seu próprio site, e totalmente gratuita, mesmo em caso de sites com fins comerciais. A continuar assim, esta é uma grande novidade em Portugal, e penso que o é mesmo a nível mundial. Não conheço outra API que tenha uma licença tão livre, ficando Portugal mais bem servido que todos os outros países. É claro que fica o receio da PT alterar o licenciamento e ficarmos com o nosso site ilegalizado, mas para já o facto é que é gratuita.

A API é muito semelhante à do OpenLayers, pelo que será muito familiar a quem conhece. No site do Sapo Mapas há documentação e exemplos para quem quiser aventurar-se. Mas acho algo penoso que tenham reinventado a API do OpenLayers – podiam ter usado o original.

Workshops

Foram realizados diversos worshops, ou sessões práticas de 3-4h, sobre diversos programas: gvSIG, OpenLayers, PostgreSQL/PostGIS, Quantum GIS, World Wind, Linux, Sextante, GISVM, e MapServer.

Pretende-se publicar online os materiais de cada workshop (dados e slides), mas para já temos a possibilidade de obter um zip dos dados de cada workshop no site das jornadas aqui:

http://evora.sigaberto.org/?q=node/85

Uma iniciativa que achei interessante foi a de ter sido criada uma distribuição Linux própria para estes workshops, com todo o software pré-instalado. Poderão ter de ainda copiar os dados dos workshops, mas de resto está tudo lá. Podem obter esta distribuição no mesmo link dos workshops.

Se gravarem o ficheiro (iso ou img) para uma pen usb ou para um DVD, podem ligar o computador a partir destes suportes, ficando com uma máquina Linux funcional, sem necessitar de mais instalações de software. Também se quiserem, podem converter estes ficheiros numa máquina virtual, que pode ser usada mesmo em Windows, novamente sem instalações de software (a não ser, claro, o software para utilização de máquinas virtuais – por exemplo o Virtual Box OSE).

Para breve está prometido um local para descarga dos materiais incluindo os slides.

Jornadas SASIG e Mapping Party

As II Jornadas de Software Aberto para Sistemas
de Informação Geográfica vão ter lugar em Évora nos dias 2-4 Novembro de 2009.

É o único evento desta temática que conheço em Portugal. Quem se interessa por este tipo de software, já praticante, curioso, ou em fase de investigação, pode agora assistir a esta conferência, ver as apresentações, frequentar os diversos workshops práticos (cursos relâmpago de 1/2 dia), e sobretudo conviver num ambiente descontraído e muito entusiasta!

As inscrições quer na conferência quer nos workshops é feita no site das II Jornadas SASIG aqui:

http://evora.sigaberto.org/

Quero também aproveitar para promover o mais possível este evento incluído nas SASIG:

Vai haver uma OpenStreetMap Mapping Party em Portugal!!

Quem quiser pode participar no levantamento das ruas de Évora, e aprender o processo de publicar essa informação na base de dados do projecto.

Para quem não conhece, o OpenStreetMapping é uma iniciativa que visa construir uma base de dados mundial gratuita com vias de comunicação, e não só: pontos de interesse, zonas verdes, muitos outros dados, e até ortofotomapas (ver o projecto “irmão” OpenAerialMap).

O processo de construção desta bd é o mesmo que criou a Wikipedia: “crowdsourcing”. Todos podemos participar, havendo ferramentas para trabalhar online ou no desktop, mais e menos complexas. Mas nem só de voluntários é feita a bd do OSM, havendo também doações de informação (alô IGP? alô IGeoE?).

Para garantir a liberdade dos dados, não se pode utilizar fontes protegidas por copyright, pelo que vectorizar sobre imagens do Google Maps/Earth não é permitido. Mas podemos usar mapas cujo copyright tenha expirado, ou até a imagem aérea do Yahoo Maps, que deu uma licença especial à OSM, para vectorizar os nossos dados. Mas o método mais interessante e divertido é o levantamento directo com GPS.

E os dados são de quem, depois de carregados? São de Todos! E qualquer pessoa pode obter cópia dos dados para a área de interesse que entender, e usá-los para o que entender (menos comercializar). Para proteger esta liberdade foi criada a OpenStreetMap Foundation.

Para os cépticos, fica aqui uma imagem de Londres dos dados existentes na bd à data de hoje:

Estado dos dados de Londres em Ago/09

Estado dos dados de Londres em Ago/09

E agora uma imagem de Évora (vergonha):

Estado dos dados de Évora em Ago/09

Estado dos dados de Évora em Ago/09

Portanto, quem quiser passar uma boa tarde a conviver com outros geeks geográficos na belíssima cidade de Évora e a contribuir para uma iniciativa histórica, venha daí e inscreva-se no site aqui:

http://evora.sigaberto.org/?q=node/66

Lá nos veremos!